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quarta-feira, 18 de março de 2020
terça-feira, 17 de setembro de 2019
CULTIVAR LAÇOS DE CONFIANÇA E AFECTIVIDADE NO SEIO DE UMA AGRICULTURA FAMILIAR QUE SE QUER DE CARIZ BIOLÓGICO
http://gazetarural.com/2019/09/17/gazeta-rural-n-o-347-15-setembro-2019/
A
Agricultura Famíliar assume-se de vital importância pelo número de explorações que
representa e pelo volume de produtos agrícolas que garantem alimento para uma
parte significativa da população. A agricultura familiar pode responder aos
desafios que se colocam a uma sociedade tendencialmente globalizante mas que se
quer sustentável, criando laços de proximidade e de confiança entre produtores
e consumidores, fruto da qualidade e afetividade que conferem uma identidade a
esta forma inclusiva de agricultura. Num tempo em que se vaticina que o futuro
assenta em megametrópoles contra todos os indicadores de racionabilidade e
razoabilidade, temos a clara sensação que pela frente nos espera uma tarefa
hercúlea ao jeito de “um David contra Golias”, na qual um sistema de produção
desta natureza parecia estar condenado ao fracasso, se não existirem diretivas
e incentivos que promovam esta atividade. Mas pode ser que o próprio evoluir
das sociedades conduza naturalmente esta prática ao sucesso na devida proporção
para cada uma das realidades quer em termos de dimensão demográfica quer pela
localização geográfica. A recente publicação do estatuto de Agricultura
Familiar e a tendência em incentivar a produção e o consumo apelidado de “quilómetro
zero”, mesmo pelas cadeias retalhistas, são um sinal que apontam numa visão de
estratégias de futuro que privilegiem a proximidade física e afetiva limitando
o uso de recursos despendidos em transporte. Estamos hoje perante uma realidade
invertida na qual parece dar-se mais importância ao transporte comparativamente
com a produção e por isso surgem estas convulsões sociais na qual aqueles que
fazem do transporte o seu modo de vida pensarem poder ditar as suas regras. São
estes exemplos que nos fazem acreditar ainda mais nos serviços e práticas em
proximidade como tendência de futuro. Existe atualmente a convicção que os
consumidores podem condicionar a produção, não apenas na variedade de produtos
mas também na qualidade dos mesmos e até nas forma como são embalados. Esta
relação tem que ser levada a cabo com base numa relação exigente ditada pelo
conhecimento sedimentado e não por um simples fluir de modas, na qual a
ancestralidade dos recursos genéticos e dos métodos empíricos de práticas
agrícolas se devem harmonizar com o conhecimento técnico-científico e a
inovação assentes na racionalidade e sustentabilidade. Por falar em valorização
de recursos genéticos, recordo-me do melão de Vila Soeiro que se cultiva(va) na
freguesia com o mesmo nome da região de Fornos de Algodres e que não se pode
deixar perder para memória futura na criação de identidades que nos distingam
da massificação e ajudem os pequenos produtores a terem nichos de mercado
baseados na ativação de neurónios relacionados
com o prazer dos sabores, das fragâncias, da convivialidade e dos
saberes. Esta como outras variedades de iguarias agrícolas, nas quais estes
territórios ditos de interior são extraordinariamente ricos, deveriam ser
preservados, estudados e alvo de melhoramento em projetos regionais que deveriam
envolver produtores, autarquias, centros de investigação, instituições de
ensino superior e o ministério da agricultura.
O uso da
designação familiar acarreta em si uma responsabilidade acrescida pela força da
palavra e todo o simbolismo que representa nos laços de confiança que permite
criar. Mas para esta concretização há que creditar tecnicamente os seus
produtores, conferindo capacidade e responsabilidade ao ato de produzir e desta
forma, as relações de confiança e afetividade que podem fazer a diferença
surgirão naturalmente. Têm que ser criados instrumentos de rastreabilidade e
monitorização das atividades e práticas agrícolas que se vão implementando ao
longo dos ciclos de produção. A estratégia de adoção das práticas da
agricultura biológica, assente em princípios de equilíbrio e sustentabilidade
do solo, das culturas, adequadas às épocas do ano e tendo por base uma comercialização
em proximidade com redução da pegada do carbono, parece ser o melhor caminho
para guindar este tipo de cultura ao sucesso que merece. Obviamente que todo
este investimento tem que se traduzir na qualidade dos seus produtos não por
calibres ou padronizações mas por sabores únicos que nos façam recuar às
memórias de infância. As práticas agrícolas são uma das áreas onde mais se tem
que apostar aliando o conhecimento empírico no combate às pragas e doenças às
estratégias mais inovadoras creditadas cientificamente. O uso de fungicidas e
bactericidas, de base natural, para a utilização em culturas agrícolas deve
assumir-se como uma das grandes mais-valias de futuro, não numa lógica de
“mezinha” mas em combinar de uma forma sinérgica as virtudes das plantas para a
preservação do ecossistema com claro benefício para a saúde dos consumidores e
dos nossos vindouros.
Nós como
consumidores também temos a responsabilidade de procurarmos incentivar as
relações de confiança com aqueles produtores de agricultura familiar que
consideramos cumprirem os requisitos de qualidade, sustentabilidade,
afetividade e proximidade. Sabermos ser exigentes mas dando tempo para que as
relações de confiança se desenvolvam e maturem naturalmente. Se por um lado
somos animais de hábitos e gostamos de comodidade, também nos cansamos cada vez
mais depressa das rotinas e isso por vezes não facilita o estabelecimento de
relações duradoiras, especialmente de índole afetiva. Aqui entram os prazeres
proporcionados pela diversidade das iguarias que de acordo com a sazonalidade
nos vão chegando pela mão daqueles em quem depositamos a confiança de alimentarem
a nossa família. No meu caso a exigência é redobrada porque as minhas duas
filhas são ambas nutricionistas e os Pais partilham o menu. Temos o privilégio
da nossa agricultora familiar nos ir surpreendendo logo desde princípio com a
chegada do cabaz semanal com uma composição de cores, formas e texturas dignas
de um(a) pintor(a) naturalista à qual se aliam as inebriantes fragrâncias das
ervas aromáticas que compõem o buquê. Havendo uma base comum estamos sempre
ansiosos, semana após semana, em saber qual a fruta ou o legume que surge de
novo porque estamos na sua época de eleição e não precisamos pedir porque ela
já nos conhece os hábitos, mas acima de tudo sabe os trunfos que tem para nos
surpreender todas as semanas ao longo do ano agrícola. Isto para além da
confiança e laços de amizade que já damos por adquiridos mas que foram os
promotores de toda esta partilha e convivência. Curioso é ser agora que estamos
de férias, período em que escrevo estas linhas despretensiosas, mais sentimos a
falta dos primores provindos da nossa Agricultora Familiar. Faço votos que este
artigo possa ser o mote para que cada um encontre a sua alma gémea no seio da
Agricultura familiar.
Bem-haja!
Etiquetas:
Agricultura familiar,
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melão vila soeiro
domingo, 20 de janeiro de 2019
CEI quem sabe de Agricultura Familiar....porque eu SEI pouco
Tive o prazer de estar presente, esta sexta-feira, no Seminário de Agricultura Familiar, Agricultura Biológica e Desenvolvimento Rural no CEI (Centro de Estudos Ibéricos) que teve lugar na Guarda a convite da minha colega Cristina Amaro da Costa a mentora do projeto que ganhou o concurso de Investigação, Inovação e Território e por isso foram convidados a organizar este seminário. O programa centrou -se em quatro Painéis_ 1. Agricultura familiar e agricultura biológica: conceitos, práticas, experiências e dinamização dos agricultores; 2. Agricultura familiar: do direito à alimentação até ao consumo; 3. Agricultura familiar e desenvolvimento rural: economia, sociologia e ambiente; 4. Construir o futuro da agricultura familiar e da agricultura biológica.
No cômputo geral a conferência decorreu com enorme sucesso o que demonstra o interesse e actualidade do assunto, a capacidade dos intervenientes no projeto vencedor e a qualidade dos oradores convidados. Eu não vou fazer uma análise aprofundada mas apenas referir alguns aspectos que considerei muito interessantes, sem desprimor para todos os outros. Em primeiro lugar quando informei na véspera o Rui Jacinto que iria à Guarda ele respondeu-me: Eu,"CEI"! Menciono este facto pela força do nome do Centro de Estudo Ibéricos (CEI) e pelo facto do Centro estar muito por dentro da informação sobre candidaturas e estratégias e do conhecimento, fruto da forte ligação às Universidades de Coimbra e Salamanca, para além da própria ligação à Câmara da Guarda e à CCDRC. Isto tem um pouco de analogia com a "NOS", que por estarmos sempre a referir a designação torna-o um produto "NOSso" e com grande notoriedade. O Jaime Ferreira da Agrobio, disse uma coisa que todos sabemos. Muitas vezes em termos de legislação, nós os Portugueses "somos mais papistas que o Papa", querendo isto dizer que o estado escuda-se com a desculpa "esfarrapada" da legislação comunitária para exigir mais do que o pedido pela própria Comunidade Europeia o que não é nada bom para a Comunidade, a nossa. Onde é que já ouvimos isto? ...talvez no... "ir para além da troika"! As minhas colegas Cristina e Raquel foram brilhantes na apresentação. O Telmo foi o exemplo de um orgulho para qualquer professor e qualquer Escola! Muitos Parabéns! A Vereadora Laura Rodrigues falou do imenso e brilhante trabalho que o Município de Torres Vedras tem feito nesta área da valorização da agricultura familiar e biológica. Nas Escolas que o Município tem a cargo, o consumo de frescos provenientes da agricultura familiar local é na ordem dos 50%. Agora estão a incentivar a agricultura biológica e aí centram-se num grande produtor por desorganização dos restantes. Não é que deva ser o papel da Câmara, mas redistribuir por vários deveria ser o mote, embora assim seja mais fácil e exequível. Faz-me lembrar a história do queijo Serra da Estrela. É um dos sectores mais empregadores da região Centro, com mais de 3200 famílias a viverem da fileira. Mas na verdade a grande vantagem é não estarem todos sediados num local. Estão espalhados por todo o território e essa é a grande mais valia deste setor e da sua importância para a região e para o Pais. Mas voltando a Torres Vedras, um projeto fantástico é o de levar os Pais a comerem com os filhos nos seus dias de anos. Obviamente que isto é possível numa idade escolar precoce. Mas seria importante levar os Pais mais à Escola por um lado para fiscalizarem a qualidade da alimentação servida, mas acima de tudo para que os Pais vejam como se alimentam os seus filhos e ajudarem os Professores nessa árdua tarefa.
A Maria Helena Marques do ISCTE, falou do projeto "GUARDA semente" e da importância da preservação das variedades tradicionais e do papel que podem ter no futuro, entre as quais a garroba que já me tinham falado para estudar mais a fundo. Ao almoço sugeri ao Vice-Presidente, Dr. Carlos Monteiro que este seria um belíssimo slogan para a Guarda agarrar com propriedade. Lembro que em Vila Soeiro há variedades únicas de melão que o Manuel Paraíso anda a tentar preservar e incentivar o seu cultivo, um pouco como o melão da variedade "Casca de carvalho".
O José Sousa da ADER-Sousa referiu que os próprios consumidores podem condicionar o que os produtores venham a produzir. Mas entendo que crucial seria que cada produtor soubesse preservar e seleccionar os seus recursos genéticos como fizessem parte do seu próprio património, porventura que tenha vindo de avós para filhos e netos. Aliás o Vereador Victor Amaral falou da sua memória em relação ao Avô que lhe transmitiu o saber da prática agrícola e o inevitável património sentimental. Mas era relevante que tivesse sentido que também lhe tinha transmitiu o património genético das variedades que o Avô produzia e que seguramente tinha os sabores e as texturas que ele nunca mais se esqueceu, muito provavelmente frutas colhidas das próprias árvores e no devido tempo.
Da parte da tarde o Professor Decano Valentin Cabero do Departamento de Geogafia da Universidade de Salamanca abriu o livro. Cada palavra sua tem a densidade de um saber inesgotável e de uma mensagem muito actual. Para além de tudo o mais, deu o exemplo como o mais sabedor cumprindo na integra o horário que lhe foi atribuído e acabando lá em cima deixando todos com a avidez de querem mais. É assim que devemos transmitir aquilo que pretendemos. Eu como moderador, não cortei a palavra a ninguém porque entendo ser uma questão de respeito, mas numa próxima tenho que ser mais incisivo nas regras desde início. O Fernando Delgado como conhecedor de fundo do território do Pinhal interior transmitiu uma mensagem culturalmente estética para além de técnica, com pormenores deliciosos de alguns trechos entre os quais o de Mia Couto com referência a que as aldeias perdidas são como a arrecadação da Paisagem e lugares desmapeados do Mundo.
Emiliano Tapia (Asdecoba) falou dos projetos fantásticos que leva a cabo com resultados muito positivos, para dar dignidade às pessoas que sofreram de "azares na vida". Tal como a Alguém que tem um azar na vida e que inclusivamente possa ser acusado, deve poder ter uma outra oportunidade para que mostre que se quer redimir e seguir o curso normal de uma vida com sucesso, dando dignidade ao produto do seu trabalho. Na própria cultura norte-americana, numa outra lógica, por alguém não ter sucesso num primeiro negócio não quer dizer que não tente e force para que as coisas corram bem a seguir.
Por último, o Professor Catedrático António Mexia como sempre fez "mexer" com aquilo que sabe e fala com uma dinâmica muito sua e um conhecimento científico consolidado de uma prática activa.
Uma última referência à Cláudia Chaves da Escola Superior de Saúde de Viseu que fez uma brilhante comunicação cruzando a área da saúde com esta da agricultura familiar de uma forma muito interessante e prospectiva em termos de futuro, revelando o que a saúde pode fazer neste projeto e como os resultados deste projeto podem ajudar no cuidar das agricultores envolvidos neste tipo de agricultura. Por outro lado em off também revelou as dificuldades técnicas que teve em levar por diante um projeto que envolve dados pessoais e o poder de certos lobbies a quem não interessa que se saiba muito das implicações do excesso de fitofármacos na saúde humana. A mensagem é a da importância que no Instituto Politécnico de Viseu se criem mais projetos multidisciplinares entre as várias escolas até para, por vezes, desanuviar um pouco o ambiente que se vive dentro das próprias escolas e sermos mais profícuos e transversais no conhecimento e no saber com melhores resultados nas conclusões.
Normalmente associa-se esta agricultura familiar a uma agricultura de subsistência. Nada mais errado! Não é uma alimentação para fazer cumprir mínimos, mas antes uma agricultura de qualidade para fazer recuperar memorias de sabores e saberes tradicionais com qualidade nutricional e sentimental. É preciso saber conhecer a realidade onde cada projeto está inserido e procurar desenhar em pormenor enquadrando os activos que possam existir em cada região e em cada momento para que resulte em sucesso. Não basta vontade política, é preciso que alguém faça o trabalho de cerzir os interesses e as vontades em prol do bem comum. Muitos parabéns a todos por esta realização!
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