domingo, 5 de maio de 2024

Árvores Resilientes Que Contam Histórias

 




As três espécies, o Carvalho-alvarinho (Quercus robur L.; Fam. Fagaceae), a Faia-europeia (Fagus sylvatica L.; Fagacee) e a Tília-prateada (Tilia tomentosa Moench.; Malvaceae), todas caducifólias, revelam o cerne da sua identidade, porte e arquitetura quando desprovidas de folhagem. A vestimenta, curiosamente, é muito biodiversa em formas, tons e matizes o que exalta a identidade de cada espécie.

Comecemos pela taxonomia e o que nos dizem as famílias e os seus apelidos. A família Fagaceae inclui algumas das mais importantes plantas lenhosas do Hemisfério Norte, constituindo uma das fontes mais importantes de alimento para a vida selvagem (sylvatica) nas regiões de floresta temperada da Eurásia. O epíteto específico “robur”, do carvalho, apelida a robustez que ostenta cuja arquitetura erige uma árvore máscula e majestosa.  A Tília, que se assume como um dos ex-libris da cidade de Viseu, apelido como Afrodite arbórea, pelo senso de simetria e todo o desvelo que coloca na toilette, sendo uma das árvores de eleição do Mestre Aquilino Ribeiro que, as plantou no seu pátio beirão e que, privilegiadamente e sentimentalmente, as admirou e descreveu.  

A dendrocronologia, representa o ramo da ciência que se dedica ao estudo da datação dos anéis de crescimento e, etimologicamente, vem do grego, “dendros”, que significa árvore, “cronos”, que expressa tempo e “logos” que se refere a ciência. Quando observamos um corte transversal de uma árvore, é possível notar que ela possui círculos concêntricos denominados anéis de crescimento que resultam da atividade de crescimento do câmbio vascular. Um anel de crescimento típico possui duas partes distintas. O lenho primaveril, com uma coloração mais clara, que representa o crescimento do início do período vegetativo, normalmente na primavera. O lenho outonal, representa o fim do período vegetativo, geralmente no outono e, normalmente, apresenta uma coloração mais escura. A formação de um anel de crescimento típico é mais comum em árvores que crescem em locais com estações do ano bem definidas, como as regiões temperadas. Já em regiões tropicais e subtropicais essa diferenciação é menos definida. Fatores bióticos, abióticos, antropogénicos e outros podem afetar o crescimento de uma árvore e ficam indelevelmente gravados no seu cerne como uma fita do tempo de uma qualquer cassete que começa no umbigo, mas que irradia para a floresta.

A experiência de 25 anos a conviver e avaliar o estado fitossanitário das árvores da cidade de Viseu, permite-nos indagar sobre as causas que permitiram estarmos aqui a admirar a simbiose entre a componente científica de uma anatomia arbórea e a inspiração artística da Marisa Benjamim. Para memória póstuma das árvores considerámos parâmetros dendrométricos e aspetos da biomecânica das árvores através da realização de sondagens com um resistógrafo na extensão do diâmetro total do tronco.  Sabemos que os elementos arbóreos do Carvalho-alvarinho derivam do exemplar majestoso que estava há alguns séculos no parque Aquilino Ribeiro e que fomos monitorizando ao longo dos anos até à sua queda, por causas naturais, fruto de um avançado estado de degradação no tronco, em novembro de 2020.

A Tilia-prateada proveniente do Fontelo, muito provavelmente, padeceu de um fenómeno típico desta espécie que se apelida casca inclusa e ocorre em zonas de bifurcação com uma ligação estrutural fraca, fruto de uma falha na consolidação, e que em ramos de grande diâmetro aumenta a probabilidade de rutura.

Olhando com pormenor o tronco do Carvalho-alvarinho no seu cerne apresenta-se castanho-escuro de contorno regular e definido com o borne de tom branco-amarelado. A anatomia revela camadas de crescimento distintas, especialmente no cerne, pela variação destacada no diâmetro dos poros de outono para os de primavera. Os vasos de primavera muito grandes, circulares a ovais, solitários, de parede medianamente espessa e quase totalmente oclusos por tilos, no cerne. Os de outono mais pequenos, de contorno mais ou menos poligonal, formando bandas radiais que alargam, em leque, para a extremidade do anel em crescimento. É uma madeira com uma densidade de 710 kg/m3 e uma dureza alta com um cerne de boa durabilidade e o borne sensível.

A Faia-europeia de cor amarelo-dourada, sem cerne distinto possui uma medula pequena com camadas de crescimento visíveis e nítidas por tonalidades de cor.  É uma madeira moderadamente pesada (675 kg/m3) de secagem relativamente lenta e delicada pela forte anisotropia (fendimentos e empenos). É particularmente sensível ao ataque de fungos cromogéneos e lenhívoros, que se desenvolvem rapidamente no borne, muitas vezes ainda na natureza.  A Tilia-prateada apresenta uma madeira amarela-rosada, sem cerne distinto. Apresenta camadas de crescimento moderadamente distintas por uma linha de tecido mais claro ao nível da separação de dois crescimentos contínuos cujas zonas de primavera e outono apenas são notadas por ligeira variação de cor. Madeira muito leve (470 kg/m3), dureza branda e textura muito suave e fraca. Revela uma secagem rápida e elevada e possui vulnerabilidade ao ataque de fungos e insetos.

É sobre estes materiais naturais com histórias e propriedades diversas que a artista plástica Marisa Benjamim criou a sua perspetiva “Resilient Gardens”, traduzindo em arte a cronologia gravada no cerne destes exemplares que refletem a memória dos jardins e parques da cidade Viseu, apelidada Cidade-Jardim das Beiras.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Quando os sinais se cruzam mais perto que longe...é o Máximo

 





Hoje ousei escrever sobre a experiência de estar tão longe de poder privar com o Fernando Alves (FA) e de ter estado tão perto do meu paraíso, num Portugal que de lés a lés é tão rico e variado que não será fácil encontrar em outras geografias este tamanho de gente. Relembro que esta história começa algures por 2010, mais precisamente a 23 de fevereiro, quando surge uma vontade intrínseca de escrever pequenas crónicas num blogue que apelidei por Biogere e cujo primeiro título foi “O Queijo como ícone das Beiras” e que começa assim … “O Queijo foi eleito o produto de referência para iniciar a atividade deste fórum. A razão é simples, constitui na nossa opinião um dos expoentes que deriva das características e qualidades ímpares da paisagem e dos recursos naturais e endógenos das Beiras.”

Para alguém que não é um escritor nato e cujo mundo que conhece por via do sentir é limitado, resta-lhe atentar aos pormenores do dia a dia e às coisas simples da vida que podem ser tema de análise e interpretação.  Procuro não ser radical na análise e deixar dupla interpretação nas entrelinhas quando a mensagem o pressupõe não por conveniência, mas por convicção.

Por isso dei por mim, na altura, a olhar os mestres inspiradores como o FA, não para copiar, mas para inspirar e ajudar a respirar o palpitar do pensamento. No dia 27 de abril de 2011, escrevi, uma das primeiras crónicas em que referencio o FA. Mas que dia é este! Faz agora precisamente 13 anos, exatamente no dia em que passou na antena 1 a nossa conversa sobre o cardo máximo no programa “Tão Longe e Tão Perto”. E o que referi na altura “Religiosamente, atraso o "passo", não para chegar ao serviço às nove em ponto, mas para ouvir os sinais do Fernando Alves e por vezes buscar inspiração para a crónica matinal. Hoje, invariavelmente, vinha com a crónica na cabeça. Mas o FA também tinha escutado o mesmo pavão que eu ouvira ontem no decorrer da entrevista ao primeiro ministro José Sócrates. Aliás, ao que parece até o Carrilho havia escutado! E eu que ingenuamente pensara que tinha um pavão ou uma "ave" afim no quintal lá de casa. Ele há sinais que... valem mais do que mil palavras!”.

Quando admiramos e veneramos os nossos Mestres os pensamentos podem-se encontrar e confundir com facilidade. Quiçá como os casais que se vão assemelhando, no conteúdo e até na forma, ao longo do tempo de convívio e partilha. Daí a 29 de setembro de 2011 escrevia sob o título “Sinais…da crise…mas também de oportunidade…Tenho uma enorme sintonia de pensamento com os sinais do Fernando Alves. Ontem, falava com uma colega sobre o "surrupianço" do prémio de mérito aos alunos do secundário e, eis que os "sinais" falaram. São estes pequenos sinais dos ministros, agora deste, outra vez de outros, que nos põem a pensar que os cortes não são "cegos", são "cirúrgicos" e amputam algumas das poucas meritocracias ainda existentes….”.

Mais tarde a 12 de novembro de 2013, sob o título “Há sinais que interessam”… faço referência à primeira vez que ouvi a referência ao Queijo Serra da Estrela nos Sinais curiosamente numa série de programas que estava a ser transmitida de Natal . “Os sinais do Fernando Alves são um dos motes de inspiração. Sempre que posso ouço as crónicas, ditas com os tempos e os ecos do Fernando que me deixam a pensar. Esta série está a ser transmitida de Natal, no Brasil e ele fez referência ao Queijo Serra da Estrela e do estudo de uma brasileira, Adriana Lucena à volta deste ícone. Vamos seguir este impulso e contactar esta advogada, cozinheira de vocação que estudou 4 anos o queijo Serra da Estrela. Depois contamos....”.

Continuamos por 2017 com uma crónica… “A natureza pensa em tudo...e coloca à mão de semear!” … Atualmente queixamo-nos muito das alterações climáticas e de outros problemas do foro ambiental e ecológico, criados quase exclusivamente por obra e graça da espécie humana. É óbvio que habitam outras espécies no planeta, mas até o hipopótamo, com toda aquela corpulência parece que tem pezinhos de veludo. Por isso, não terá sido por acaso que este "cavalo do rio" foi escolhido para coqueluche do Continente e também não foi por acaso que hoje o Fernando Alves, o tenha referiu no seu "Sinais" a propósito dos hipopótamos de Mário Vargas Llosa que considerava animais dóceis, de pele macia que apenas ingerem libélulas (sendo herbívoros) e que adoram espojarem-se na lama e fazer amor…”

 Depois da introdução que justifica a admiração pelo FA, façamos o historial desta experiência recente que foi o florir do capítulo maior “Cardo Máximo”. No dia 14 de abril regressava da minha terra natal, Barcelos, quando entrou na minha caixa do correio um mail do FA a convidar-me para uma conversa à volta do cardo sem a formalidade do cunho de académico, mas numa versão coloquial onde o cidadão Paulo Barracosa pudesse relatar as experiências que terão sugestionado o FA a considerar o cardo como um mote inspirador, suficientemente interessante, para tema no romper da segunda dezena de programas do “Tão Longe e tão perto” da Antena 1.

O FA faz este exercício por respeito ao seu perfil jornalístico, indissociável da pessoa, aos seus pares que com ele formam uma equipa e aos portugueses disseminados no interior profundo, esses nos quais acreditamos e onde é crucial perpetuar saberes, recriar tradições e recuperar “credos” nos territórios, de essência natura e potencial biotecnológico.

Faltava eleger o cenário da gravação, o local e os participantes. O espaço natural seria a ESAV, mesmo no meio da cidade de Viseu. Contudo, tratava-se de um programa de rádio onde o som é o principal meio condutor, devendo ser imaculado, e infelizmente no meio dos cardos como o FA pretendia sentiríamos o eco da circulação automóvel como eu havia testado uns dias antes, mesmo no começo da manhã. Por isso, a Quinta da Alameda foi, naturalmente, o local de eleição porque tínhamos o cardo, os pássaros e ainda pelo facto deste ano estarmos a realizar um ensaio numa parcela de vinha “Touriga-nacional” com aplicação de um extrato de cardo no tratamento fitossanitário preventivo sob a orientação técnica da Sónia Rebelo, responsável vitivinícola da Quinta da Alameda. Mas gostaríamos de surpreender o FA com uma mesa de atributos do cardo e voltamos a eleger os alunos do curso profissional de restauração da Escola Mariana Seixas orientados pelo Professor Nélson Augusto na preparação, confeção e serviço de mesa ao nosso ilustre convidado. Neste caso vieram acompanhados dos alunos de comunicação e fotografia que fizeram a reportagem e respeitaram o pedido do FA para apenas a divulgarem nos pós programa. Este é um aspeto curioso, num tempo de imediatismo e mediatismo, em que antes de o ser já era, sabermos esperar pelo tempo e pela surpresa do que será que aí vem desta vez é uma virtude!

Estava tudo a postos para o início da conversa, eis que ainda a digerir e transtornado pela derrota do Benfica do dia anterior frente ao Marselha, o FA percebeu que havia deixado descarregar o seu fiel amigo gravador de uma vida que era o cerne deste momento e sobre o qual iria ficar registado todo o ambiente e conteúdo que conseguíssemos expressar num momento de inspiração e naturalidade, tal como os anéis da árvore onde estávamos sob o copado na sua sombra. As opções seriam mudar toda a mesa para junto de uma ficha colada a uma parede ou carregar, novamente, o gravador enquanto ganhávamos inspiração para o momento. A ficha recaiu sobre a segunda opção, como que dando a oportunidade de podermos confraternizar um tempo extra e contarmos histórias que não viriam no programa. Esse aliás era o receio do FA que estivéssemos a perder a riqueza do programa porque já pareceriam histórias “requentadas”. Tivemos esse cuidado, também porque o FA trazia o seu roteiro bem estudado, na forma e no conteúdo com que me iria surpreender em direto. A história que merece ser contada é a do Manuel Paraíso que em 1998 se sentiu inspirado por uma crónica do FA sobre cogumelos silvestres na Mata da Margaraça e que desde então foi o mote para que o Manel fosse um dos maiores especialistas, por hobby, em cogumelos silvestres para além das urtigas, tomates e outros primores agrícolas e recursos endógenos. Não preparamos com antecedência, uma única questão, portámo-nos como jogadores profissionais sem sabermos ao início qual seria o resultado final e quase não houve recurso ao VAR para que numa qualquer montagem de uma qualquer linha condicionarmos o resultado final.

Neste interregno, por questões técnicas, pudemos degustar os primores preparados pelos aluno(a)s sob a batuta do Nélson, o “Dry-Cardo”, as Cardeiras dos Fumeiros D´Amaral, O vinho da APPACDM, a cerveja da Poliglota, e claro o Queijo Serra da Estrela da Casa da Insua, o queijo fresco confecionado pelos meus alunos da ESAV e da Escola Profissional de Tondela, e bolo podre de Castro Daire e o pão de centeio e os cogumelos do cardo temperados com azeite da Alameda. Na mesa estavam ainda as alcachofras que a Teresa havia encomendado ao FA e nós por obra e graça o tivéssemos adivinhado. Chegados aqui podemos começar o programa…







domingo, 4 de fevereiro de 2024

Agricultura de "Precisão"...não jogar a feijões...mas sim a milhões...para fazer Bingo

 

https://floresecoreseamores.blogspot.com/2018/08/jogar-ao-loto-feijoes.html

Os agricultores têm toda a legitimidade em mostrarem o seu descontentamento em relação ao desequilíbrio gritante que se observa na fileira que começa no agricultor que arca com todos os riscos e a maior parte do trabalho e culmina na comercialização e em particular nas grandes superfícies onde se acumulam os lucros. Aliás estes desequilíbrios que se registam em fileiras ficaram a "nú" na revolta dos polícias e na não realização do jogo Famalicão x Sporting  e que provou que uma "dúzia" de policias, anda por cima "doentes" impediram a realização de um jogo que se joga a milhões e não a feijões. Os ganhos de uma fileira têm que ser redistribuídos de uma forma mais equitativa para que o todo seja saudável e não se criem "obesidades excessiva" nuns e morbilidade em outros. Acredito que está aberta a "caixa de pandora" para virmos a assistir a descontentamentos mais exacerbados e transversais a muitas outras áreas. Por outro lado, e no caso da agricultura, os agricultores, individualmente ou através de associações profissionais, devem ser mais proactivos no sentido de conseguirem obter outros dividendos para além do produto agrícola em si. Por exemplo as questões de valorização dos diversos tipos de biomassa num tempo de circularidade e sustentabilidade têm que ser levadas a sério para que as biomassas  possam ser devidamente valorizadas em indústrias inovadores como a cosmética, saúde e bem estar, fitofármacos, têxtil,... Há ainda as questões  relativas aos diversos tipos de serviços do ecossistema prestados pelos agricultores que têm que ser devidamente remunerados e que todos teremos que ajudar a pagar para complementar os subsídios da PAC. Obviamente que a redução de perdas de água, a eficácia na ação dos fitofármacos para além da redução do impacto no ambiente são áreas que têm que ser tidas em atenção para o aumento da rentabilidade e reconhecimento do papel vital da agricultura na sustentabilidade ambiental, a par da produção alimentar. Agora os agricultores Portugueses receberam 500 milhões que parecem uma esmola de favor eleitoral. No futuro todas estas questões têm que ser esgrimidas com base em contratos bem estabelecidos para mostrar que aqui não há favores. Há muito trabalho dos agricultores que é feito em prol de todos em favor da sustentabilidade do Planeta!

quinta-feira, 29 de julho de 2021

O Fontelo vai deixar de ser um Karma...

 ...sob o pretexto da preservação da biodiversidade da fauna e flora daquele espaço o que parece ser um absurdo mas que não me espanta. Impedir a realização de eventos culturais no Fontelo com número limitado de pessoas a assistir parece ser um erro crasso e espero que não corresponda a uma nova política cultural em Viseu. Se assim for vê-se "Soçobrada" uma estratégia cultural que vinha a ser implementada e perde-se uma boa parte da biodiversidade criada ao longo destes últimos anos, num postal de eleição da cidade de Viseu, como é a Mata do Fontelo. Eu não conheço as reais razões que levaram a esta opção que ouvi hoje no programa da manhã na Antena 3 e não tenho dúvida que se for verdade o que foi dito será motivo de "chacota" doravante e não apenas pelo Hugo Van der Ding.






domingo, 25 de julho de 2021

Comboios de Portugal,....TGV....Turismo, Glamour, Visão

 


Ontem vi na SIC noticias uma reportagem dos Barcos casa (quase Barra.cosa), uma ótima ideia com origem na Fuzeta que já conheço há algum tempo mas que nunca ousei optar, acima de tudo por ter a fortuna do meu compadre José Contreiras ser um marinheiro dos quatro costados e eu poder usufruir desse luxo. Mas este tema "veio à baila", pela conversa do almoço dominical no qual a minha filha Mariana, deu uma ideia excelente. Em linhas de comboio desativadas poderiam ser colocadas carruagens-hotel individuais em que as famílias, casais, amigos poderiam usufruir de paisagens magníficas com as mais variadas vistas. Tal como nos Barcos Casa que apesar de fundeados na Ria formosa existe um pequeno bote para pequenas deslocações a praias edílicas, também neste caso poderia existir um pequeno "veículo" para pequenas deslocações movidos a "pedal" ou "braçal". Agora que o comboio parece voltar a estar na moda, esta seria uma ideia a explorar para explorar o Turismo com Glamour e Visão estratégica. Depois vem a valorização dos recursos endógenos, dos seus territórios, das infraestruturas abandonadas e das suas gentes...



Condomínios de Luxo...pela autenticidade

 


O jornalista Amadeu Araújo faz o favor de, pontualmente, no âmbito dos artigos que escreve no caderno de Economia do Expresso solicitar opinião sobre temas que estejam relacionados com o desenvolvimento do território rural. O desta semana tem a ver com os condomínios de aldeia. Estes projetos podem vir a ser de extraordinária importância mas para isso têm que ser muito bem concebidos e implementados. O desafio é implementar, porque "falar bem e bonito" é fácil, o difícil é levar a cabo na realidade. Mas haja a oportunidade! Eu dei o exemplo de Querença, ao qual estive, indiretamente, ligado e fui visitar na vertente de consultor e gerador de ideias para os candidatos e na vertente da dinamização política através de contactos com o Vice-Presidente da Câmara de Loulé, o meu Amigo José Graça, onde pude perceber algumas limitações para ter sucesso na implementação. Procurei durante anos dinamizar nas Terras do Demo um projeto similar. Não tive arte nem engenho político para o fazer. Apenas o Presidente de Moimenta da Beira mostrou sensibilidade e apetência para avançar. Mas na minha opinião era preciso convencer, Vila Nova de Paiva, Sernancelhe, Sátão e Viseu para fazer um contínuo e ganhar escala. A seleção dos candidatos é uma das tarefas fundamentais, assim como a atribuição de bolsas ou estágios profissionais para a autonomização dos candidatos aliada a uma responsabilização. A escolha das Aldeias modelo é outro dos elementos cruciais. A escolha da Aldeia pode determinar em larga medida a escolha dos candidatos. Mas diria que as áreas genéricas são Agronomia, Alimentar e Nutrição, Florestal, Arquitetura Paisagista, Biotecnologia, Filosofia e Sociologia, Novas Tecnologias da Informação, Geografia, Linguística, artes ... de diferentes proveniências geográficas nacionais e internacionais. Acrescentar que os cursos técnicos profissionais, vulgos CETs são de vital importância. Encontrar tutores científicos e técnicos, privilegiando aqueles com relação sentimental e afinidade ao território. Caracterizar muito bem esse território sob as mais diversas vertentes, mas esta base, na maioria dos casos está já estabelecida de grosso modo. Depois existem a particularidades e especificidades que podem fazer toda a diferença para a definição de uma identidade. Tenho ditado algumas ideias para a região raiana de Almeida e uma das mais simples mas acredito das mais bem sucedidas será fazer um encontro dos "Almeidas" por apelido ou afinidade sentimental e isso ajudaria e ajudará, porque a dinâmica foi instituída, a criar muitas sinergias e projetos com raízes fortes se devidamente coordenadas. Por exemplo alguns dos maiores astrónomos amadores Portugueses têm o apelido de Almeida e isso acredito que criará a oportunidade de esse ser um dos polos de desenvolvimento em Almeida. Cada região terá que encontrar os seus "Almeidas" e as suas apostas estratégicas. Se a área envolvente for rica em medronheiros terá que ser adaptada uma destilaria para a produção de um medronho de excelência. Uma queijaria de cabra ou ovelha tem, obrigatoriamente, que marcar presença. "O queijo quer-se sem olhos e o pão com olhos" e esta máxima deve ser usada para nos abrir os olhos tornando estes locais privilegiados para uma degustação autêntica, inesquecíveis na arte de receber e no ambiente. Estas aldeias poderão ser uns verdadeiros condomínio de luxo, onde apeteça viver, pela ambiência e autenticidade que podem vir a criar, muito em especial nestes tempos conturbados em que algumas lógicas instituídas foram alteradas. A qualidade das comunicações, mais do que a qualidade das ligações  viárias,  serão fundamentais para o sucesso, divulgação e captação de públicos para estes projetos. Estes serão locais privilegiados para a implementação de fóruns investigação e discussão, em circulo restrito, que envolvam ciência, arte e cultura. Nesta época de eleições autárquicas temos sido chamados a opinar sobre o que fazer para o desenvolvimento do Mundo Rural. Os diagnósticos estão mais que feitos desde há muitos anos. A mim o que me move é realizar. Como recado diria que os autarcas destes territórios têm que acreditar nas suas gentes, no potencial da identidade dos seus territórios e não importar urbanidades formatadas para um todo.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Separar o Trigo do Joio...

 


A goma de alfarroba (E410) é uma das melhores gomas existentes pelas suas características e por ser uma das mais seguras. A recente notícia da contaminação com óxido de etileno, um pesticida cancerígeno foi uma surpresa de todo o tamanho. A alfarrobeira é uma das árvores mais notáveis pela sua adaptação ao ambiente mediterrânico e os seus frutos possuem um conjunto de aplicações notáveis pelas características da polpa, do endosperma e do gérmen. O alerta da DGAV é para levar a sério, mas é preciso "separar o trigo do joio". O eventual uso de pesticidas em alfarrobeira foi aplicado com que função? Aplicado na árvore ou no armazenamento dos frutos ou sementes? Em alguma situação terá sido usado em indústrias na processo de produção da gomas? Nas indústrias Portuguesas? Como em todas as áreas de negócio temos empresários sérios e outros sem escrúpulos. As gomas de alfarroba são usadas na indústria alimentar e farmacêutica e por isso é dos produtos mais escrutinados e fiscalizados do mundo. Recordo-me que uma empresa Japonesa reclamou há uns anos indicando que algum funcionário da linha da fábrica teria uma infeção por paranício. Isto dá uma ideia do rigor a que este produto é sujeito. É preciso ir ao fulcro do problema, detetar e esclarecer a origem deste grave problema para salvaguardar todos aqueles que trabalham de forma competente com um produto de uma qualidade excecional. Não serão apenas questões comerciais que estão em cima da mesa, mas este problema poderá ser uma vantagem a médio prazo para as indústrias que confirmarem a sua qualidade de excelência com certificado de origem das sementes. Os certificados de origem dos produtos naturais são um dos assuntos que irão ganhar cada vez mais relevância no curto prazo.